Reflexões da REBRIP a partir do debate com o diplomata Celso Amorim no dia 1º de Fevereiro.

Créditos de imagem: Fotógrafo/Fundação Perseu Abramo

 

O debate com o embaixador Celso Amorim aconteceu na sede da Fundação Rosa Luxemburgo (FRL), em São Paulo, no dia 1º de Fevereiro. Além da FRL, a REBRIP e a Perseu Abramo – que transmitiu ao vivo o evento – ajudaram na organização do evento. Participaram na mesa, além de Amorim, o Secretário Regional da Internacional de Serviços Públicos, Jocelio Drummond; Terra Budini, pesquisadora da Perseu Abramo e professora de Relações Internacionais da PUC-SP; e Gerhard Dilger e Jorge Pereira Filho, respectivamente direto e coordenador da Fundação Rosa Luxemburgo. Ao longo de mais de duas horas de exposições teóricas, análises de conjuntura e momentos descontraídos de memórias diplomáticas, Amorim forneceu elementos centrais para iniciar a compreensão desse período cheio de incertezas no cenário internacional.

 

Como era de se esperar, a principal questão destrinchada pelo embaixador foi em relação ao novo presidente dos Estados Unidos, e suas consequências para dois pontos de especial importância para ele: o multilateralismo e a América Latina.

 

Em primeiro lugar, Amorim apontou a necessidade de entender, a fundo, o fenômeno chamado por ele de “trumpismo”. Assim, devemos refletir acerca das políticas socioeconômicas empregadas no centro do capitalismo nas últimas décadas para compreender a fundo a crise do modelo neoliberal, e de que forma ela abriu espaço para a ascensão de discursos xenófobos, machistas e racistas ao nível dos direitos humanos; e de posturas isolacionistas e céticas à integração regional, no plano internacional.

 

O embaixador colocou que, para os não estadunidenses, o pior do governo Trump, na realidade, provavelmente será em relação ao mau exemplo que ele representa ao mundo, devido seus discursos de ódio e na contramão do respeito às minorias. Sem diminuir o grande risco que isso representa a humanidade, Amorim nos lembra o perigo de se idealizar o passado recente com o governo do simpático Barack Obama. Em relação à economia e intervenções militares, ele nos lembra, o governo Obama foi extremamente nocivo ao resto do mundo, em ações como a promoção de acordos megarregionais – como o TISA e TPP – e em ações militares – Líbia, Iêmen, entre outros. Se, por um lado, a retórica carismática de Obama melhorou a imagem dos Estados Unidos perante o mundo – sem que mudasse da mesma forma os interesses do país -; a retórica agressiva e sem escrúpulos de Trump está abrindo margem para uma união dos povos contra as políticas estadunidenses.

 

Na opinião do embaixador, Trump, assim como o “Brexit” representa claramente uma rejeição ao processo da globalização da forma em que foi no conduzido neoliberalismo. Embora concorde com a saída do TPP, o que, para Amorim, foi motivo de tristeza para a elite brasileira, ele demonstra preocupação diante da fragilização dos mecanismos institucionais internacionais – ONU, OMC, etc. Contudo, coloca ele, ainda é muito cedo para fazer prognósticos pretenciosos do futuro do multilateralismo.

 

Em relação à América Latina, Celso Amorim lamentou a pouca iniciativa da diplomacia brasileira frente a esse cenário e os espaços que com ele se abrem. Citou o exemplo de maiores possibilidades de diálogo com a China, o México e Venezuela, a partir da agressividade de Trump com os dois primeiros países e da intensa crise política em curso nosso país vizinho. No mesmo sentido, o embaixador apontou para uma possível “negligência benigna” de Trump para a América do Sul. Isso significa que, talvez, de modo parecido à época do governo Bush, o continente sul-americano fique em segundo plano na política externa estadunidense. Esse contexto abriria espaço para um maior protagonismo e liberdade de ação do Brasil na região. Porém, critica o ex-ministro, o governo ilegítimo de Temer não conseguiu ainda aproveitar essas brechas.

 

O debate na íntegra pode ser visto no link: https://www.youtube.com/watch?v=FZMxnBwhkbU