Encontro em Fortaleza reitera necessidade de que bloco seja instrumento contra modelo neoliberal

No momento em que a capital cearense sedia a sexta cúpula do BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), os movimentos sociais demarcam terreno, afirmando sua pauta para que este seja um “ator econômico e político” que potencialize a luta pelo “desenvolvimento sustentável” num quadro de crise nos países capitalistas centrais.

“Se existe hoje um contraponto do ponto de vista da geopolítica internacional à hegemonia estadunidense é onde o BRICS atua”, afirmou Ademar Mineiro, da Rede Brasileira Pela Integração dos Povos (Rebrip), nesta segunda-feira à noite, durante a abertura do encontro “Diálogos sobre desenvolvimento, Os BRICS na perspectiva dos povos”.

Segundo Ademar, a postura assumida pelo bloco em defesa da Palestina e da reforma das instituições financeiras internacionais são dois exemplos disso. A criação de um banco comum de desenvolvimento, que deve ter um capital inicial de 50 bilhões de dólares, podendo chegar a 100 bilhões de dólares, também foi citado como um avanço, já que “diferente do Banco Mundial, apresentará projetos da área do setor público dos países membros”. A cobrança agora, frisou Ademar, é que o movimento social e sindical seja ouvido e incorporado às decisões, “pois o setor empresarial já está dentro”.

Brian Ashley, do AIDC (Alternative Information and Development Centre), reiterou a importância do protagonismo do Estado e da participação social, citando a postura anti-neoliberal de governos como o da Venezuela, Equador e Bolívia, que se mobilizaram para enfrentar a “crise do capitalismo internacional, que se reflete em queda de investimentos e aumento do desemprego”. “No momento em que os Estados Unidos tentam ser o xerife do mundo”, denunciou o ativista, é fundamental colocar os BRICS na agenda, assim como a construção de um banco de desenvolvimento comum.

Vinda das comunidades afetadas pela mineração em Moçambique, Graça Samo emocionou os presentes ao relatar os abusos e atropelos cometidos pela multinacional brasileira Vale do Rio Doce em seu país, alertando que o BRICS não pode ser uma caixa de ressonância dos interesses do capital. “Não podemos deixar que nossas nações sejam vistas como meros mercados ou canal de acesso a recursos fáceis”, conclamou. Graça defendeu uma mudança imediata na lógica neocolonial, mercantilista e utilitarista contra países e povos. “É medonho, assustador e terrorista o que está acontecendo nas regiões onde estão localizadas as minas da Vale em Moçambique. Não é isso o que queremos”, frisou.

De acordo com Yiping Cai, da Rede de Mulheres Nova Era, da China, a ação coletiva deve ser priorizada neste momento, “para que os governos sintam a pressão necessária e a nossa resistência não seja silenciada”.

A representante do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Maria de Jesus, lembrou que ao mesmo tempo em que “os BRICS significam confronto com a hegemonia dos EUA, buscam ser outra hegemonia”, o que coloca em pauta o debate sobre o “para quê e para quem” o bloco está conformado, bem como a discussão sobre “mercado, lucro e as leis do capital”.

Enquanto os movimentos sociais calibram a pontaria, um elemento é inquestionável: o peso demográfico e o crescente poderio econômico dos países do bloco, o que possibilita uma intervenção conjunta com muito maior alcance. “A população dos cinco países chega a quase metade da população e força de trabalho do planeta; o território somado entre os membros do bloco ocupa 26% da área do planeta. Trata-se de países que têm papel central em suas respectivas regiões. Se em 2003 os BRICS representavam 9% do PIB mundial, em 2009 este percentual já era de 14%”, assinala a Rebrip.

Os Diálogos sobre desenvolvimento acontecem até a próxima quarta-feira com atividades autogestionárias no auditório Benedito Dias Macedo, em Fortaleza.