A REBRIP tenta fornecer elementos para entender a incerta conjuntura internacional atual.

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O período mais recente da conjuntura internacional foi marcado por enormes incertezas estratégicas derivadas da posse do novo governo dos EUA, de Donald Trump. Sem conclusão até agora, pois existe resistência em relação a algumas indicações ministeriais ainda, o novo governo estadunidense marcou suas ações até aqui pela continuação de uma estratégia de confrontação iniciada no período pré-eleitoral, causadora de enormes turbulências.

 

Na área específica de relações comerciais, no primeiro dia útil de governo - o governo tomou posse em uma sexta-feira, e a medida foi tomada na segunda-feira seguinte - o Governo Trump, através de decreto presidencial, retirou os EUA da Parceria Trans Pacífico (conhecida pela sigla em inglês TPP). O TPP já estava negociado entre os países participantes e em fase de aprovação no nível nacional de cada um dos países, em geral nos Congressos nacionais. Assim, através dessa medida, os EUA inviabilizam o TPP tal qual negociado. Além disso, o Governo Trump anunciou que deverá proceder a uma revisão do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, que envolve EUA, Canadá e México desde o início dos anos 90.

 

O início do Governo Trump também foi marcado pela abertura de alguns contenciosos com os chineses, no campo comercial e geopolítico (em especial no tema das relações com Taiwan), o que vem diminuindo ao longo do primeiro mês de governo.

 

Finalmente, existe um ponto forte de discussão na questão migratória, com a adoção de medidas de endurecimento em relação à migração de latino-americanos e muçulmanos, com questionamentos da sociedade civil, do judiciário e dos níveis subnacionais. Esse ponto deve se prolongar, sem que um norte conclusivo esteja apontado.

 

Duas dessas áreas de discussão mais dura incluem o México – migração e revisão do NAFTA, o que azedou ainda mais – junto com a quase folclórica discussão da construção de um muro entre os dois países – as relações entre os dois países. Esse fato abriu um espaço para uma aproximação do México em relação aos demais países da América Latina, espaço que a princípio surpreendeu de certa forma os governos locais, especialmente os novos conservadores recém-chegados ao poder, que haviam optado por políticas de aproximação com os EUA de forma subordinada, e não percebido que as posições do novo governo estadunidense abririam na prática espaços de integração regional novos. Também, articulações como a Aliança do Pacífico, estruturadas para aproximar parceiros latino-americanos dos EUA, ficaram meio sem rumo com a guinada estadunidense. Será preciso acompanhar de perto os movimentos pragmáticos de aproximação na região que decorrerão dos espaços abertos pela mudança da política dos EUA.

 

Por sua vez, na Europa prevalecem incertezas estratégicas importantes, que dizem respeito por um lado a como se efetivará o processo de saída do Reino Unido da União Europeia (processo conhecido como “Brexit”, aprovado em plebiscito no Reino Unido no ano passado), e de outro, a processos eleitorais em países importantes do núcleo da União Europeia ao longo do ano (Holanda, França e Alemanha). No caso da Alemanha, o processo eleitoral estará para acontecer quando a Alemanha sediará a reunião do G20, no meio do ano, e terá acabado de acontecer quando se instalar a COP, no fim do ano, o que acrescentará elementos de instabilidade nestes processos negociais.

 

Do ponto de vista da América do Sul, a Argentina sediará em dezembro a reunião ministerial da OMC, Organização Mundial do Comércio, que tem como Diretor Geral o brasileiro Roberto Azevêdo. Será interessante ver como os novos governos conservadores que hegemonizam o Mercosul se relacionarão com uma reunião que poderá estar tensionada pela política comercial dos EUA, que até aqui confronta os paradigmas clássicos do livre comércio e aponta para uma tentativa de dinâmica econômica mais endógena.

 

Neste quadro geral, a política externa e especialmente comercial do Governo Temer no Brasil viu seus horizontes de aproximação comercial e política com os EUA se estreitarem com a opção estadunidense por uma maior autarquização. Isso implica uma revisão dos parâmetros adotados até aqui, mas uma intensificação de aproximação com a União Europeia (que já vinha sendo buscada) e com a China (que vinha acontecendo sem maior protagonismo do governo brasileiro). Entretanto, esses movimentos vão esbarrar tanto na instabilidade europeia e seus processos eleitorais, quanto na possibilidade de um endurecimento da política dos EUA em relação à China, momento em que eventualmente o Brasil pode ser pressionado a ter que fazer uma opção sobre o tipo de relação com os EUA, o que claramente não é confortável e nem o desejo do atual governo brasileiro.